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E tu me entregastes um molhos de chaves velhas e enferrujadas e pediu-me para que fizesse o que bem entendesse com elas, reconheci de longe que pertenciam ao seu antigo apartamento de móveis empoeirados que você me chamara para ir no fim de semana passado, e eu, com a postura de “orgulhosa”, recusei sem mais nem menos. Eu não entendi o que tu quiseras dizer com “faz o que bem entender com elas”. Seria um pedido para ir vê-lo esta noite? Ou, o uso da ironia por não ter aparecido na semana passada? Enfim, mais uma dúvida. Olhei em teus olhos e só consegui dizer ‘ok’ e sai sem ouvir nenhum pronunciamento teu. Você deve ter ficado assustado com minha resposta tão monossílaba, mas você sabe que eu sempre fui disso, de nunca dizer nada ou quase nada. Mas o que esperava que eu dissesse? De que não sabia do que se tratava? De que presumia qualquer atitude tua, menos essa? Talvez não. As chaves, é, as chaves, eram as chaves da porta de entrada do teu apartamento vazio e solitário, assim como você. Lembrei-me, novamente, de quando me chamaras para ir vê-lo todo entusiasmado porque iria morar sozinho, sentiu-se tão independente e auto-confiante, você parecia tão feliz e você sabe, sua felicidade é a minha também. É, eram as tais chaves que me levavam até você, e talvez, até mim. Faz tempos que não utilizo essas chaves para entrar em teu apartamento, e faz muito mais tempo que não vou até ele. Você queria me deixar sem fala? Pois bem, fez direito dessa vez. Me deixou sem palavras, sem ações, eu não conseguia nem ao certo pensar. Acha que eu deveria ir até você e te pedir desculpas? Me perdoa por não conseguir ter uma reação. Eu gostaria de ter dito tanta coisa, mas eu não consegui, eu não sabia nem como estava respirando ainda. E as chaves, eu não parava de olhas para as chaves, as chaves que me trariam você de volta, que trariam nós, é, as chaves, eu as segurava com insegurança e exaustidão. E se, talvez, ele me entregara as chaves para ir visitá-lo e voltarmos a ser o que éramos? E, se, talvez, ele estivesse sentindo falta? Foi muita informação de uma vez só, muitas palavras para mim, muitos pensamentos dentro de mim, muitas dúvidas e incertezas. Foi uma surpresa tremenda, uma reação inesperada, foi o que eu menos esperava de você. Não sei nem ao certo me explicar, quanto mais colocar em palavras. Eu sinto muito por ter fugido do que você queria me dizer, mas eu não estava preparada para nada, nada mesmo. Senti que você me quisera dizer algo quando me entregastes as chaves, mas eu não estava preparada o suficiente para ouvir. E você me despreparou mais ainda, eu fiquei vulnerável a vida, a você. Eu odeio me sentir assim, não saber o que fazer, não ter um pensamento amadurecido sobre isso, não saber ao certo o que fazer. Perto de você, eu me tornei uma criança, bem pequena, inocente. Eu fui tão ingênua que só pude segurar as chaves e partir. As dúvidas sobre o que fazer com elas continuava a me domar, a tomar conta de mim e me deixar cada vez mais incerta sobre o que efetuar com elas. É, eram as chaves, as chaves que poderiam mudar totalmente a nossa situação. Eu simplesmente poderia ir até você, até o teu apartamento antiguado lá no centro da cidade, e ver você e ter você e amar você e voltar a você. Eu fiquei na cama relembrando de cada sorriso teu. Eu sei que já havia prometido não fazer mais isso. Só que, foi inevitável, eu juro. É, as chaves, as chaves me lembravam você, seu cheiro, seu sorriso, sua voz, seu jeito, seu abraço, seu beijo, lembravam nós. Quando você disse na terça passada que queria conversar comigo, já imaginei aqueles papos clichês onde você diria que não queria me iludir e coisas do gênero que me enjoam. Mas foi diferente, não conversamos, o máximo foi uma troca de olhares rápido e duas ou três palavras. É, você me entregou as chaves, as chaves de teu apartamento, as chaves. Pensando bem, eu poderia fazer o que quisesse com elas, poderia jogá-las ou entregar a alguém. Mas você sabe que eu nunca teria coragem disso. É, eram as chaves, e elas estavam em meu poder. Minha vontade de ir até você e te dar um abraço apertado aumentava cada vez mais. A quanto tempo eu não fazia isso? Quarenta e sete dias. Muito não é? Eu não sei nem que atitude tomar, ir ou ficar, ficar ou ir. Estou surpresa por você ter me entregue as chaves de teu apartamento, provavelmente tens uma cópia guardada para qualquer precaução. E estou insatisfeita de não ter conseguido dizer uma palavra que eu queria. Estou brava comigo e com você por ter terminado e partido. Se bem que, ficar não era a melhor opção. É, eu tinha as chaves, as chaves de teu apartamento. Eu só queria dizer os motivos por não querer aquela chave nas minhas mãos, eu as preferia contigo, para que fizesse o que quisesse com elas. Você lembra quando eu ficava triste? Lembra o que eu fazia? Corria para aí, pulava a janela, me cobria e dormia na segurança de que ficaria melhor no outro dia, na certeza de que tudo passaria pois estava ao teu lado. Você lembra quando eu não queria voltar pra casa o que eu fazia? Fugia para aí, abria a porta, a geladeira, comia e ficava jogando vídeo-game com você. Você lembra o que eu fazia quando ninguém me entendia e eu queria chorar? Chegava aí, destrancava a porta, sentava na sua cama e chorava, sem nada dizer. E era tudo isso com você. Eu tinha a chave da sua casa, do seu coração. Eu tinha a chave da entrada de teu apartamento, eu tinha a chave. É, a chave que definiria nosso meio-termo. E eu não suportaria se tivesse fim. As chaves, as chaves que me conduziam a você, ao teu cheiro, teus olhos, teu abraço, a você. Essas chaves eram obrigação demais pra mim. Porque ter isto nas minhas mãos é responsabilidade demais, sabe? Eu não iria me aguentar em tê-la e não poder usar. Porque você sabe, que me deu para que eu pudesse “fazer o que bem entender com elas.” Eu poderia te tê-lo novamente. As chaves, eu queria usá-las, mas não queria tê-las. Eu gostava dela quando eu utilizava várias vezes por semana, para ver você. Não era mais uma chave, era a chave que abria a tua porta. Não vou aguentar ter que devolvê-la novamente. Sinto muito. Agora são propriedades minhas. É, eram as chaves, da tua porta, do teu coração. E eu podia fazer o que quisesse com elas. Pensando bem, o que eu poderia perder indo até você? Já que, não te tinha mais?
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As Chaves, Ariel S. (via
doce-inverno)
(via doce-inverno)
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Século vinte e um. E pensar que os últimos séculos, mesmo sem máquinas, celulares, velocidade, praticidade, tivemos pessoas mais evoluídas. Parece que, quanto mais fino o celular, mais gorda a pessoa. Quanto mais inteligente o computador, mais burra a pessoa. Vivemos na época de conflitos e guerras contra nós mesmos. Nós fazemos a própria guerra, o próprio medo. Escravos de nós mesmos e de vícios banais. Quem sabe daqui a uns anos não comecemos a nascer com um celular no lugar do cérebro. Vivemos na época de lendas, das coisas que não existem mais. Das coisas que o homem acabou destruindo, como o amor ao próximo, respeito, a igualdade. Talvez daqui a alguns anos a natureza também vire uma de nossas lendas. Talvez consigamos, não é? Pessoas, seus avós, bisavós, trisavós, até tataravós e por aí em diante não foram as ruas, protestaram e lutaram por direitos (que na maioria das vezes, só vieram a ser nossos na geração seguinte) pra que você, seu projétil da sociedade, dono de um celular quinhentas vezes mais inteligente que você e futuro escravo e dependente tecnológico, fique em casa, colocando hastag no twitter como protesto, compartilhando imagens no facebook ou fique colocando suas fotos nas redes sociais com a máscara do V for Vendetta, isso só te faz mais babaca, burro, imbecil. Isso não tem sentido. Talvez nossa coragem também tenha virado uma lenda. E do jeito que enganamos a nós mesmos, que matamos, roubamos e traímos, talvez nossa honra também tenha virado uma lenda. Mas acho que não. O homem de hoje já não nasce mais com isso.
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Pedro Rocha (via
doce-inverno)
(via doce-inverno)
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Você se cansa de amores incompletos, de amores platônicos, de falta de amor, de excesso disso e daquilo. Se cansa do “apesar de”. Se cansa do rabo entre as pernas, da sensação de estar sendo prejudicado, se cansa do “a vida é assim mesmo”. Você se cansa de esperar, de rezar, de aguardar, de ter esperanças, cansa do frio na barriga, cansa da falta de sono.Você se cansa da hipocrisia, da falsidade, da ameaça constante, se cansa da estupidez, da apatia, da angústia, da insatisfação, da injustiça, do frenezi, da busca impossível e infinita de algo que não sabe o que é. Se cansa da sensação de não poder parar.
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PC Siqueira (via
doce-inverno)
(via doce-inverno)